A RAINHA DONA ESTEFÂNIA E O PALÁCIO DAS NECESSIDADES

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Quando no dia 18 de maio de 1858, pelas 17 horas da tarde, a Rainha Dona Estefânia, depois de ter chegado ao tejo, ter desembarcado em Lisboa pelas 10 horas da manhã, ter visto pela primeira vez o seu marido e a sua nova família e ter confirmado o seu casamento na igreja de S. Domingos com o Rei D. Pedro V de Portugal, chega finalmente à que será a sua nova residência: o Palácio das Necessidades. O seu encanto com a casa foi imediato. Um belo palácio do seculo XVIII de suave cor rósea, situado à beira de um parque, não podia deixar de lhe trazer boas recordações devido às suas semelhanças com o Palácio de Jaegerhof, em Duesseldorf, onde vivera até então e onde fora tão feliz. O Rei quis mostrar-lhe desde logo as salas e quartos do palácio onde passaria a decorrer a sua vida. Devia estar ansioso por mostrar à sua jovem consorte as salas e quartos que para ela fizera decorar recentemente. Não deixará de ter causado uma impressão favorável à rainha a decoração do seu quarto, ou câmara de leito, em cujo teto de estuques, artisticamente acabados de elaborar, se destacava, entre coroas de folhagem, o monograma Real “s p” Stéphanie e Pedro”. Do mesmo modo, na decoração de coroas de flores garridas, pintadas nas portas do que passaria a ser o seu toucador estava bem visível a data do real consórcio: “1858”. Na correspondência que se conserva nos arquivos da família principesca de Hohenzollern, no castelo de Sigmaringen, a Rainha Dona Estefânia descreve em pormenor certos aspetos da sua residência como cenário dos diversos momentos da sua vida familiar e oficial. Mas é no que se refere a si própria e à sua ocupação do tempo que podemos encontrar certas referências curiosas. Agradam-lhe muito os seus aposentos cuidadosamente preparados sob a vigilância do rei e mobilados com peças de riquíssimo mobiliário expressamente feitas pelo exímio “ébéniste” francês déjante, estabelecido em lisboa. Não deixa de notar as sobreportas da sua sala particular onde estão representadas, em fino trabalho de talha, as armas das casas reais de Hohenzollern e de Portugal, sustentadas pela figura de Santa Edwiges, padroeira da sua casa soberana. Agrada-lhe muito o pequeno jardim para onde deitam os seus aposentos bem como o terraço que lhe proporciona uma linda vista sobre o tejo. De lá contempla o belo espetáculo do pôr do sol sobre o rio e o poético nascer das estrelas.

 

A vida ao ar livre assume um papel importante nas descrições da sua vida diária. É na tapada que passeia diariamente com o Rei, em passeios longos em que colhem flores compondo ramos naturais e simples que adornarão os seus aposentos. Apesar de não gostar do Palácio de Mafra, tal como o seu sogro D. Fernando, não se importa de arrostar com o desconforto e o frio daquela imensa mole vazia, apenas porque D. Pedro adora caçar naquela tapada e ela considera que esse exercício é essencial para a sua saúde e o distrai da intensa atividade intelectual exigida pela governação. Acompanha sempre o seu marido nessas excursões cinegéticas, de carruagem ou a cavalo. O palácio de Sintra também recebeu obras dirigidas pelo arquiteto da casa real Possidónio da Silva para receber a Rainha condignamente em novos aposentos. tal como nas necessidades o monograma real “sp” adorna o teto dos seus aposentos. Mas Sintra tem um grande inconveniente para D. Estefânia. Está longe de um jardim ou parque onde possa passear. Terá sempre de se deslocar em carruagem para admirar uma bela paisagem ou poder percorrer a pé as veredas da serra de Sintra. Quando se desloca ao Palácio de Alfeite, que também sofrerá obras de restauro e alterações na decoração pela mão do arquiteto Possidónio da Silva, é sobretudo para dar a oportunidade a D. Pedro e seus irmãos de praticarem o desporto da caça ou a possibilidade de navegarem em pequenas embarcações pelo tejo. Não deixa porém de se interessar pelo cuidado do pequeno jardim anexo ao palácio e pelas estufas que lhe estão próximas. Mas o espaço que rodeia o palácio não é propício a belos e tranquilos passeios. Pelo contrário, quando reside nas necessidades, pode em qualquer momento livre, deslocar-se fácil e rapidamente aos jardins, primorosamente desenhados pelo jardineiro francês Bonnard e mantidos com belas flores e plantas. Aí pode também aceder à grande estufa circular que o rei mandara erguer no ano anterior ao seu casamento e onde se guardavam espécies raras. Nesse cenário magnífico da Tapada das Necessidades pode permanecer ou deambular entregue aos seus pensamentos, ultrapassar as saudades da sua família que tanta falta lhe faz ou esquecer as agruras que o seu papel de Rainha Consorte de Portugal inevitavelmente lhe pode trazer. A memória da Rainha D. Estefânia perdura no Palácio das Necessidades, quer no interior, como já referimos, quer no pequeno jardim tão do seu agrado, onde hoje se pode admirar o busto que a representa, oferecido pela comunidade Portuguesa de Duesseldorf e que recorda a sua ligação àquela cidade.


Manuel Côrte-Real
Embaixador

 

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